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      Letterio Santoro, foi professor com convicção e trabalhou muitos anos na antiga Febem, hoje denominada Fundação CASA

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  • Um quarto de século em Garça (4 – VIDA RELIGIOSA)

    2014-01-25
    Postador por: Um quarto de século em Garça (4 – VIDA RELIGIOSA)

       A vida religiosa ou a vida de fé perpassa, a meu ver, todos os instantes da vida familiar e profissional, da vida política e da vida literária, cujos últimos vinte e cinco anos em Garça estou comemorando, chegados que fomos a esta nobre e gentil cidade aos 30.12.1988. Analisando o aspecto religioso, porém, cheguei à conclusão de que em São Paulo, dos anos 60 aos 80, pouca participação tive em grupos religiosos na comunidade, atendo-me mais, na década de oitenta, em função de meu trabalho, à vida sindical e à vida partidária. Diferentemente do último quarto de século em Garça, quando em envolvi em pastorais e movimento da Igreja Católica.

                Sou cristão católico desde pequeno. Vivi por onze anos (1953-1964) em seminários para formação de sacerdotes. Tive a graça de estudar na Pontifícia Universidade Gregoriana, de viver no Colégio Pio Brasileiro de Roma por dois anos, e durante o Concílio Ecumênico Vaticano II, a cuja abertura pelo papa João XXIII assisti em outubro de 1962. Devo minha formação a meus pais e à Santa Igreja Católica, ambos marcando-me por toda a vida, devendo a ambos meu eterno reconhecimento e gratidão. Tudo que eu penso, tudo que eu falo, tudo que eu faço, tudo que eu vivo é influenciado por essa formação que se resume a “entender a verdade, amar o bem e praticar a justiça” (Tomás de Aquino).

                Uma das atividades mais antigas de que participamos em Garça, minha esposa  e eu, é o programa atualmente chamado de Momento Sagrado da Ave Maria, toda segunda-feira, às 18 horas, na Rádio Universitária. É um compromisso pequenino este da hora do Ângelus, de praticamente dez minutos, pelo qual os cristãos católicos bendizem a Santíssima Trindade e lembram, ao mesmo tempo, a Encarnação do Verbo de Deus. Oramos juntos locutores e ouvintes fiéis. Comecei sozinho na Rádio Centro-Oeste, onde cheguei a tratar rapidamente de noções da Doutrina Social da Igreja. Por razões de censura imposta, o então pároco Pe. João Carlos negociou a mudança para a Rádio Universitária. A transferência aconteceu comigo.

    Ainda na rádio, e por uns bons anos, contribuí com comentários no programa dominical “A Igreja está no ar” sobre o significado religioso da comemoração. Eu gravava antes, pacientemente, as minhas intervenções, que eu mesmo, em geral, gostava de ouvir aos domingos, e, acredito, também o ouvinte. Nos últimos anos, de repente, sem explicação, o programa foi interrompido. Ultimamente a Judite e eu, sempre na Unirádio, às quintas-feiras, das 21h30às 22h30, fazemos com gosto o programa “Sobriedade – Jesus Fonte de Vida”. Participamos, assim, através do rádio, da Pastoral da Comunicação, por nossa conta, pois essa Pastoral desapareceu também em Garça.

                Outra atividade que nos mereceu muita atenção, e às vezes muita participação na Igreja, foi a Campanha da Fraternidade (CF) dos últimos vinte e quatro anos. A primeira de que me lembro bem foi a de 1991, cujo tema era A Fraternidade e o mundo do trabalho, em comemoração ao centenário da Encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII. Foi apresentada na antiga Câmara de Vereadores, e me mereceu algumas crônicas sobre as relações do Capital e do Trabalho. Mais ativamente, porém, nos envolvemos nas CFs de 2000 a 2005, chegando eu a fazer parte não só da equipe paroquial, mas também da diocesana. Os Encontros preparatórios de fim de semana em Itaici deslumbravam-me sempre, assim como os Encontros de avaliação. Serviam-me como retiros. E aquele ambiente do mosteiro, com seus silêncios, com seus jardins, com sua arte era uma prelibação de eternidade feliz. Itaici sempre me inspirou poemas. Há que lamentar, a meu ver, que nas CFs de 2012 e 2013 a Igreja de Garça tenha perdido a oportunidade prevista em lei municipal de expor para as autoridades e a sociedade local sobre os temas sociais importantes daqueles anos.

                O ano mais marcante, porém, de minha vida religiosa em Garça foi o de 2007, com meu ingresso na Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP) em fevereiro, e com a criação do Grupo de Estudos Bíblicos (GEB) Santa Clara em agosto. Na SSVP nós comungamos Cristo no sacramento do pobre, levando-lhe esperança através da Palavra, e alimento nos momentos de aflição. Duas são as alegrias do vicentino: ajudar o irmão pobre na sua necessidade, e ouvir dele, depois de algum tempo, que não precisa mais ser ajudado, pois pode andar com as próprias pernas. O fundador da SSVP é Frederico Ozanam, intelectual e homem de ação, cujo centenário de nascimento foi em 2013. E o grande protetor dos vicentinos é Vicente de Paulo, imitador de Jesus Cristo e organizador da caridade. É a melhor espiritualidade para mim nos dias atuais, pois com ela concretizo o evangélico pensamento do papa Francisco: “O verdadeiro poder é o serviço”.

                Mas muito querido me é o Grupo de Estudos Bíblicos (GEB) onde, com irmãos de nossa comunidade do Perpétuo Socorro, semanalmente, desde 2007, nos reunimos para orar, para ler, para estudar, para meditar a Palavra de Deus, e vivê-la depois com paixão. Nós mesmos criamos o nosso esquema, escolhemos os livros a ler, procurando compreender melhor a mensagem de Deus. A Palavra é a minha paixão. Para entendê-la busco comentários de especialistas que ajudam a entender o texto, o contexto e o pretexto de cada livro da Escritura.  A Bíblia para mim é o livro mais revolucionário que existe, especialmente os profetas e os evangelhos, infelizmente ainda desconhecido pelos cristãos católicos, e cujo estudo botaria de pernas para o ar as estruturas injustas de nossa civilização. Pois a Bíblia nos propõe a civilização do amor. Sonho com a multiplicação dos GEBs pelas capelas e matrizes de nossa cidade.

                Por fim há que se falar de nossa participação, nos últimos treze anos, do Grupo Bom Pastor – Casais em 2ª União. Em 2000 o assunto era ainda meio tabu, embora tratado com ousadia por João Paulo II em 1981 na Exortação Apostólica Familiaris Consortio. Hoje paróquias estão solicitando Encontros de Casais em 2ª União, que estamos acostumados a organizar anualmente para regiões da Diocese de Marília. Padres e leigos, percebendo a gravidade crescente da situação, dão lugar de destaque dentro da Pastoral Familiar ao estudo dos casos difíceis. Quam mutatus ab illo! Tenho esperança, com a distribuição do Plano Diocesano de Pastoral por todas as paróquias, ordenada pelo novo Bispo da Diocese de Marília, que se inicie a partir de 2014, com a graça de Deus, um renovamento espiritual no coração dos leigos de nossas Paróquias, especialmente as de Garça. Deus nos mostrará o caminho a seguir.

    Membro da APEG; autor, entre outros, do livro ELEGIAS, à disposição nas Bibliotecas Municipal e do Centro de Referência da Educação.

     

     

     

     

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